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A velha máquina de costura

Entender a morte não é fácil. Sabemos que, cedo ou tarde, ela levará embora aqueles que amamos, aqueles que odiamos, aqueles que não conhecíamos. Ela levará a todos. Cedo ou tarde.

A vovó morreu no dia dos seus santos de devoção, seis de janeiro, dia de Santos Reis. Passamos um Natal maravilhoso, como há tempos não tínhamos em família. Apesar do estado febril, ela riu e conversou o tempo inteiro. Agarrou a minha mão, eu beijei seus olhos e pude dizer a ela que eu a amava. E como amo!

Ela retornou à chácara e, no dia seguinte, deu entrada no hospital São José. Vivemos onze dias de dor. Ela odiava hospitais. Do quarto para a UTI, após o infarto, e da UTI para o descanso. Com toda sabedoria, ela nos deu onze dias para acostumarmos com a dura realidade de que ela iria embora.

Sabe aquelas pessoas sábias por natureza? Que nunca estudou, mas seu conhecimento de vida é superior a tantos doutores por aí?
Vovó era dona de uma sabedoria imensa e via além do seu tempo. Por vezes, achei que ela enxergasse o futuro.

Dava conselhos. Muitas vezes eu discordei de todos, mas devo admitir que se eu tivesse entendido as entrelinhas, teria seguido à risca o que os olhos daquela menina me diziam.

Pois é, entender a morte, mesmo acreditando que o espírito permanece vivo, não é fácil. A ausência do corpo físico dói demais e mesmo ela tendo ido embora aos 97 anos, parece que ela tinha tantas, tantas, mais tantas coisas por fazer.
Quase cinco meses depois, as lágrimas ainda caem quando falo dela, mas falar dela alivia tanto a dor, mesmo tendo certeza que aumenta consideravelmente a saudade.

Já escrevi tantas coisas para ela, sobre ela, dela, mas hoje, quando peguei a velha máquina de costura no conserto, que a mamãe acabou de herdar, me deu um nó imenso na garganta.

Pensei em todas as pessoas que eu amo. Mamãe, papai, meus irmãos, Larissa, Arthur, Pedro Nicholas, Tia “Do Carmo”, Tio Zinho. Enquanto a máquina de costura e eu, íamos sozinhas para a casa da mamãe, lembrei-me do que a vovó dizia: a roupa rasgada e remendada, sempre rasga no mesmo lugar.

E ela sempre dizia isso quando falava de sentimentos e das relações entre as pessoas. O amor e o respeito que devem estar acima de qualquer coisa.

Então, cheguei à conclusão que precisamos amar mais, respeitar mais as pessoas com as quais convivemos. Amigos, namorados, maridos, filhos, colegas de trabalho, porque, uma vez que os sentimentos rasgam, não terá maquina de costura que possa remendá-los.

Olhei para a máquina de costura e lembrei-me do sorriso da vovó. Que saudade do seu abraço, do cafuné, do beijo.

A velha máquina de costura está de casa e manivela novas, mas ela guarda a sabedoria da vovó e, agora, a nossa saudade.

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1 Comentário

  1. Lindo! Como é bom ler você escrevendo lindamente sobre sua amada Vovó. Parabéns pelo texto e mais ainda pelo sentimento. Beijos. Te amo, cada dia mais.

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